• Ana Amélia Genioli e a Imagerie Contemporânea

     

    Soho, New York, setembro de 1999, alguns minutos da flanerie e eis que a fisionomia da metrópole contemporânea descortina-se diante do olhar de Ana Amélia. A referência a Walter Benjamim é imediata e profícua. Benjamin soube como ninguém perceber nos escritos de Baudelaire e nos estudos sobre Paris, capital do século XIX, que o caráter da metrópole moderna, em constituição, traduzia-se, sobretudo, através de suas “imagens”.

     

    Numa época de volatilização e dissolução da tradição, por um lado, e de equivalência mercantil, por outro, nada mais natural que as construções de ferro, os pavilhões de exposições, a multidão nas ruas, a moda e, sobretudo, as passagens e as vitrines parisienses repercutissem de forma marcante no imaginário coletivo, formando um solo propício à fantasmagoria da cultura moderna.

     

    Uma metrópole constituída como montagem dadaísta não poderia ter seu caráter capturado de forma linear e apolínea. Somente um olhar apto às fragmentações, justaposições e incongruências seria capaz de capturá-lo; somente alguém que se “sentisse em casa” e “cúmplice” deste processo – em uma palavra, o flaneur – poderia dar voz a essa modernidade e, dialeticamente, superá-la.

     

    Embora as “Vitrinis” de Ana Amélia nos remetam a esse universo, sua instigante contemporaneidade nos leva adiante. O espaço aqui apresentado não é mais o da utopia – moderna ou benjaminiana – mas, no dizer de Focault, o da heterotopia, isto é, um lugar onde os locais de determinada cultura podem ser representados, e, simultaneamente, contestados e invertidos. Suas vitrinas transformam-se num instigante espelho onde a metrópole pode fragmentar-se e assumir seu caráter imagético. Nesta Vitrini tornada espelho/écran, “lugar sem lugar algum”, onde o dentro se torna fora e vice-versa, o universo das mercadorias justapõe-se ao da metrópole, compartilhando sua forma-publicidade.

     

    Ao lidar com os diversos mídia, das imagens metropolitanas à videográfica, passando pelo contraponto do congelamento fotográfico, esta vitrina/espelho/écran, lugar de projeção/reflexão, parece querer tornar-se, nas mãos de Ana Amélia, o lugar de introjeção/reflexão do próprio destino da contemporaneidade. Eis que toda a imagerie contemporânea encontra sua melhor forma de expressão e questionamento.

     

    Uma sombra – constante e fugidia –, entretanto, insiste em se fazer notar em toda esta instalação: a do transeunte/espectador em busca de sua identidade. Esta parece ser a grande questão que o presente trabalho coloca. A busca de uma identidade, fragmentada e constituída por essas imagens. Diante do espelho lacaniano, essa imagerie traz mais inquietação do que esperança de reencontros. Ana Amélia não pretende responder a esses questionamentos. Ao contrario, ao refazer seu percurso inicial, transpondo essas vitrinas para uma outra metrópole, num interessante diálogo – e outros diálogos poderão somar-se a esse -, indica que outras temporalidades, outras heterotopias e outras linguagens tornam-se a as novas fundações da subjetividade e da fantasmagoria da cultura contemporânea.

     

    Ruy Sardinha Lopes

    2000

    Filósofo, mestre e doutor pela Faculdade de filosofia da USP, professor no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da EESC USP.

    Vitrini Sesc Paulista