• Per-médio, Per-tinente, Per-aí

     

    Ao vermos as fotos de Ana Amélia Genioli é impossível não nos recordarmos de Marcel Duchamp, com seu “Nu descendo a escada”, onde este objetivou a nudez clássica do corpo numa ação banal, cotidiana; flagrou-o em seus instantâneos, a ação sendo congelada.

    Por sua vez, a artista nos revela um corpo biomórfico, corpo-ação que dança, voa e flui na textura da areia que é papel, tecido; suporte de transparências que se interpenetram num espaço entre; espaços da ação vivente.

    Suas fotos exibem o corpo – objeto como algo móvel, transitável, imagens diáfanas; instáveis; o deslocamento dentro da imagem que é sempre a soma de outras três conjugadas; o suporte é aqui a fusão de instâncias móveis que interpenetram-se e resultam numa nova organização que se dilata no tempo.

    A organização resultante é o tempo expandido. O registro do movimento em escorço, ao redor de si mesmo, engolindo-se; casulo, invólucro. Bólide espaço-temporal.

     

    A imagem é um texto, lugar da imaginação, organicidade; a ação figura a palavra do corpo expandindo-se e dilatando-se no acontecimento, o tecido vira carne; matéria fluída, dimensionável e não mais um suporte plano e irredutível; as cartesianas implodem.

    Orla que beira o mar e casulo que abraça a si mesmo.

    Lençol freático da pele.

    Praia-papel-suporte.

    Conchas na orla.

     

    Daniella Samad

    2006

    Profª de Arte Contemporânea na Pós Graduação em História da Arte da Unicsul.

    Per-médio, Pertinente, Peraí - 2006 Galeria Eduardo Fernandes