by Tálisson Melo
Hoje, a ideia de catástrofe deixou de nomear acontecimentos excepcionais. Incêndios recorrentes, secas prolongadas, enchentes cíclicas, ar irrespirável, calor persistente e — talvez de forma ainda mais inquietante — o lento e contínuo derretimento das grandes massas de gelo do planeta indicam uma transformação estrutural nas condições em que vivemos. Não se trata mais de um desastre por vir, mas de um estado de mundo. Em No tempo das catástrofes, Isabelle Stengers descreve essa situação como a “intrusão de Gaia”, considerando que não falamos mais de episódios passageiros e isolados, o que vemos é uma condição duradoura à qual precisamos responder. A natureza não pode continuar sendo entendida como um cenário, paisagem externa ou reserva de recursos para extrativismos. O ambiente é um agente, presença incontornável que reconfigura nossas formas de viver, produzir e imaginar. Habitamos uma entidade da qual participamos: interpenetração e interdependência.
Em meio a essa instigação urgente, retomo a noção de intempéries ao me aproximar do processo criativo de Ana Amélia Genioli. O termo tem uso menos corrente atualmente, mas se originou do latim designando a perda da justa medida, da harmonia entre as partes, do equilíbrio entre forças. Na Antiguidade, nomeava tanto a doença do corpo quanto a perturbação do clima — saúde, ambiente e comportamento eram indissociáveis. Posteriormente passou a significar exposição ao exterior e, na modernidade, os agentes naturais que desgastam a matéria e ameaçam as condições humanas. Agora, porém, volta a adquirir amplitude: não apenas o mau tempo, mas a experiência de viver em instabilidade contínua.
O título Intempéries aponta para essa fricção: uma resposta sensível às variações dos ecossistemas: climáticos, institucionais e subjetivos. Na obra de Genioli, o gesto funciona como um sismógrafo, mediando corpos e espaços ao registrar vibrações, movimentos, pressões e transformações. Sua poética opera como membrana porosa entre dentro e fora, entre experiência íntima e fluxos do mundo. A filosofia da metamorfose de Emanuele Coccia foi uma forte referência em nossas conversas: “nascer não é apenas fazer parte do mundo, mas tornar-se um atlas aberto do mundo”. Nas obras-peles-atlas de Genioli, cada imagem acolhe o mundo dentro de si, o mundo enquanto sujeito em imagem. Cada trabalho é um caminho possível de infiltração pela topografia resultante de um complexo jogo de forças ambientais, emocionais, geológicas, políticas e íntimas.
Na instalação das encáusticas da série Casulos, isso se evidencia, pois imagens derivadas de um mesmo método produzem variações de matéria, cor e sentidos: grandes ilhas, geleiras, nuvens, lagos ou galáxias centralizadas no papel, repletas de minúcias previstas e acidentais. São fluxos e sedimentações capturados no curso de uma metamorfose pessoal com dimensões coletivas, reorganizando matéria e tempo. Em conjunto, revelam a delicadeza do processo de construção das imagens sujeito-paisagem em transformação que dão a tônica do trabalho mais atual da artista.
Os casulos também aparecem como pequenas esculturas tramadas que parecem contaminar as paredes do espaço expositivo, como uma proliferação de insetos. Confeccionados por artesãos Kogi, do norte da Colômbia, materializam a metáfora da artista por meio de uma técnica ancestral. Aqui os casulos são zonas experimentais: membranas por meio das quais o corpo se funde com o mundo até que suas fronteiras sejam irreconhecíveis. Suspensos, inflados, tensos ou rasgados, encenam um movimento contínuo entre recolhimento e expansão.
Metamorfose, portanto, não é uma passagem pacífica. É um processo convulsivo. Os casulos são a metamorfose em ato, assim como as composições arquitetônicas sobre campos de pigmento da série Desorbitais, nas quais a artista faz coincidir escalas planetárias e microscópicas. Galáxias e células, crateras e poros, erupções solares e cicatrizes epidérmicas coexistem numa mesma imagem. A oscilação entre macro e micro é um princípio vital que atravessa seu trabalho.
No espaço do ateliê, uma construção projetada pela própria artista também como seu casulo, contendo seus espasmos criativos ao longo do tempo, a exposição propõe um olhar retrospectivo. Reúne trabalhos desde o final dos anos 1990, com papéis embebidos em verniz e cera onde traços formam simultaneamente tatuagem e relevo quase simbólico; gravuras dos anos 2000 derivadas da silhueta da própria perna, multiplicada como vetor temporal; e obras que avançam para um interesse cartográfico e geológico mais explícito.
Ao reunir cerca de três décadas de produção, Intempéries apresenta a obra de Genioli como um campo de convergência entre corpo e território, um corpo que sofre, absorve e produz intempéries, refletindo no próprio trabalho a mudança como forma mais profunda de permanecer. Estamos diante de uma natureza em colapso que já nos atravessa. As intempéries acontecem em nós. Num mundo em que as geleiras derretem mais rápido do que nossas imagens conseguem acompanhar, suas experimentações sobre papel vão deixando de tentar estabilizar o real para aprender a viver dentro da instabilidade, oferecem formas sensíveis de habitá-la.
Intemperies
Today, the idea of catastrophe no longer names exceptional events. Recurring wildfires, prolonged droughts, cyclical floods, unbreathable air, persistent heat and — perhaps even more unsettling — the slow, continuous melting of the planet’s great ice masses indicate a structural transformation in the conditions under which we live. This is no longer a disaster to come, but a state of the world. In In Catastrophic Times, Isabelle Stengers describes this situation as the “intrusion of Gaia”: we are no longer dealing with passing and isolated episodes, but with an enduring condition to which we must respond. Nature can no longer be understood as a backdrop, an external landscape, or a reserve of resources for extraction. The environment is an agent — an inescapable presence that reconfigures our ways of living, producing, and imagining. We inhabit an entity of which we are part: interpenetration and interdependence.
Amid this urgent provocation, I return to the notion of intemperies when approaching Ana Amélia Genioli’s creative process. The term is less common today, but originates in Latin, designating the loss of proper measure — the breakdown of harmony between parts, the imbalance among forces. In Antiquity it named both bodily illness and climatic disturbance: health, environment, and conduct were inseparable. Later it came to mean exposure to the outside, and in modernity the natural agents that erode matter and threaten human conditions. Now, however, it regains breadth: not merely bad weather, but the experience of living within continuous instability.
The title Intemperies points to this friction — a sensitive response to variations across ecosystems: climatic, institutional, and subjective. In Genioli’s work, gesture functions as a seismograph, mediating bodies and spaces by registering vibrations, movements, pressures, and transformations. Her poetics operates as a porous membrane between inside and outside, between intimate experience and the world’s flows. Emanuele Coccia’s philosophy of metamorphosis was a strong reference in our conversations: “to be born is not simply to be part of the world, but to become an open atlas of the world.” In Genioli’s skin-atlas works, each image shelters the world within itself — the world as subject in image. Each piece becomes a possible path of infiltration across a topography produced by a complex interplay of environmental, emotional, geological, political, and intimate forces.
This becomes evident in the installation of the encaustics from the Cocoons series, where images derived from a single method produce variations of matter, color, and meaning: large islands, glaciers, clouds, lakes, or galaxies centered on paper, filled with both anticipated and accidental minutiae. These are flows and sedimentations captured during a personal metamorphosis with collective dimensions, reorganizing matter and time. Together, they reveal the delicacy of constructing subject-landscape images in transformation, which define the artist’s most recent work.
The cocoons also appear as small woven sculptures that seem to contaminate the exhibition walls, like an insect proliferation. Made by Kogi artisans from northern Colombia, they materialize the artist’s metaphor through an ancestral technique. Here the cocoons are experimental zones: membranes through which the body merges with the world until their boundaries become unrecognizable. Suspended, inflated, tense, or torn, they stage a continuous movement between withdrawal and expansion.
Metamorphosis, therefore, is not a peaceful passage. It is a convulsive process. The cocoons are metamorphosis in action, as are the architectural compositions over pigment fields in the Desorbitals series, in which the artist makes planetary and microscopic scales coincide. Galaxies and cells, craters and pores, solar eruptions and epidermal scars coexist within the same image. The oscillation between macro and micro is a vital principle running through her work.
Within the studio space — a construction designed by the artist herself as a kind of cocoon containing her creative spasms over time — the exhibition proposes a retrospective view. It brings together works from the late 1990s, with papers soaked in varnish and wax where lines form both tattoo and almost symbolic relief; prints from the 2000s derived from the silhouette of her own leg, multiplied as a temporal vector; and works that move toward a more explicit cartographic and geological interest.
By gathering nearly three decades of production, Intemperies presents Genioli’s work as a field of convergence between body and territory — a body that undergoes, absorbs, and produces weathering, reflecting in the work itself change as the deepest form of permanence. We stand before a collapsing nature that already passes through us. The inclemencies occur within us. In a world where glaciers melt faster than our images can follow, her experiments on paper cease trying to stabilize reality and instead learn how to live inside instability, offering sensitive forms of inhabiting it.
Tálisson Melo
Tálisson Melo é curador, pesquisador e professor. Doutor em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com estágio em Sociologia Cultural na Yale University (Estados Unidos), e pós-doutorado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Mestre em Artes, Cultura e Linguagens pela Universidade Federal de Juiz de Fora, onde se graduou bacharel interdisciplinar em Artes e Design, com concentração em História da Arte pela Universidad de Salamanca (Espanha). Entre as exposições de sua curadoria destacam-se: Não se assuste, pessoa (Memorial da Resistência – Pinacoteca de São Paulo, 2026); Fullgás: artes visuais e anos 1980 no Brasil (Centro Cultural Banco do Brasil, 2025 – prêmio APCA como melhor exposição nacional do ano); O Pernambuco cósmico de Suanê (Museu de Arte Contemporânea da USP, 2024); Atualização do sistema (Museu Nacional da República, Brasília, 2023 – prêmio ABCA como melhor exposição regional do ano); e Retransformações de Gretta Sarfaty (Auroras, 2022). Atualmente é curador do Instituto Tomie Ohtake.
Tálisson Melo is a curator, researcher, and professor. He holds a PhD in Sociology and Anthropology from the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ), with a research fellowship in Cultural Sociology at Yale University (United States), and completed a postdoctoral fellowship at the Institute of Brazilian Studies at the University of São Paulo. He holds a Master’s degree in Arts, Culture, and Languages from the Federal University of Juiz de Fora, where he earned a Bachelor’s degree in Interdisciplinary Arts and Design, with a concentration in Art History at the University of Salamanca (Spain). Among the exhibitions he has curated are Não se assuste, pessoa (Memorial da Resistência – Pinacoteca de São Paulo, 2026); Fullgás: artes visuais e anos 1980 no Brasil (Centro Cultural Banco do Brasil, 2025 – winner of the APCA Award for Best National Exhibition of the Year); O Pernambuco cósmico de Suanê (Museum of Contemporary Art of the University of São Paulo, 2024); Atualização do sistema (National Museum of the Republic, Brasília, 2023 – winner of the ABCA Award for Best Regional Exhibition of the Year); and Retransformações de Gretta Sarfaty (Auroras, 2022). He is currently a curator at the Tomie Ohtake Institute.